Resiliência

23:28



Todos os dias quando estou indo para o trabalho, vejo uma senhora tetraplégica observando tudo que acontece por trás das grades de um portão branco encardido. Sempre fico me perguntando como deve ser a vida daquela mulher. Provavelmente ela depende de alguém para realizar quase todas as atividades básicas do dia-a-dia. Por trás daquelas grades e presa à aquela cadeira de rodas, todos os dias ela acompanha a agitação de uma avenida que presencia o caos durante todo o dia. São acidentes, brigas, estresse e uma poluição imensa. Ainda assim, todos os dias, lá ela está observando toda essa confusão no mesmo lugar sempre. 

Às vezes quando eu passo e ela não está, fico tentando deduzir o porquê da sua ausência. Será que ela pegou um resfriado e preferiu ficar dentro de casa para evitar a poluição? Essa é sempre minha primeira alternativa para preencher o vazio daquela senhora estampado na varanda. Todos os dias quando eu passo às nove horas e alguns minutos lá, aquela senhora de cabelos curtos está lá sentada com uma expressão rígida e como quem fizesse pouco caso de estar ali. 

Todos os dias, desde que passei a observá-la, foram assim, exceto hoje. Hoje ela sorriu. Hoje, assim como as cortinas se abrem para um espetáculo, ela me abriu um sorriso. E que sorriso foi aquele! Daqueles que fazem ruguinhas no rosto e que enchem o olhos de quem vê! 
Foi assim comigo e por isso escrevo. Havia poesia naquele sorriso. Não consegui pensar em outra coisa senão no porquê daquele sorriso depois te tantos dias acompanhando apenas uma expressão de poucos amigos. Não sei o porquê do sorriso. Só me lembro de que quando passei e olhei para ela, ela sorriu.  Não sei se foi pra mim, mas, timidamente, eu tentei retribuir com um meio sorriso. Saiu meio amarelo, mas foi por timidez. Não sei se eu fico fantasiando as coisas ou se isso é explanar a beleza delas, mas aquele sorriso me fez pensar.  

Fiquei pensando no quão difícil deve ser a vida daquela mulher. Pensando que aquelas ruguinhas destacadas em um sorriso  naquele momento, poderiam, outrora, terem sido forjadas através de dor e sofrimento. Não pensem que estou com pena daquela senhora. No momento, eu não a conheço e provavelmente nem terei essa oportunidade, mas tenho orgulho. Orgulho daquele sorriso. Orgulho porque com todas as suas limitações, ela conseguiu oferecer um sorriso a um estranho e às vezes eu não sei oferecer isso nem a quem eu amo.  

Talvez felicidade seja algo parecido com a gratuidade de um sorriso. Talvez seja simplesmente aproveitar o que a vida tem nos dado e andar com o coração no alto e os pés firmados no chão, um coração grato.  Às vezes queremos que a felicidade nos atinja e seja algo catastrófico. Mas talvez, felicidade seja poder levantar e sentar   beira da avenida e se entreter com uma vida que não é sua, mas que está ali, ao alcance do seu olhar, acontecendo.  

No fim do dia, eu fiquei repensando no que eu quero e no que eu realmente preciso: eu preciso ser grata. Ser grata nas pequenas coisas, na simplicidade de poder sentir e dar sempre a volta por cima. Eu sei que há sempre uma nova chance. Sei que não estou só. Nós não estamos!

Talvez felicidade seja ter Paz para sorrir para um estranho e lhe oferecer  ajuda como um dia eu recebi de Alguém.

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