Cuidado com o recíproco

21:47

Fotografia: Clay Banks

Reciprocidade, de acordo com o dicionário, é a qualidade ou caráter de ser recíproco; correspondência mútua. Em tempos de relações frágeis e volúveis, a reciprocidade sincera é um milagre. Não há quem não anseie por tê-la. Não há quem não deseje ser feito feliz e fazer isso por alguém na mesma proporção. Entretanto, a prática da reciprocidade diz mais sobre ela do que sua teoria. Infelizmente, e não são em todos os casos, quando encontramos a reciprocidade em alguém temos uma tendência cruel ao descuido. Alguém já disse que "a gente sempre deixa de cuidar do que já tem em mãos" e isso, além de desperdício, é um erro gravíssimo.

Muitas das vezes quando já se sabe que alguém corresponde e que está imbuído em conservar aquele sentimento, nós nos entregamos à falta de cuidado corrosivo. Qual de nós não faz isso ainda que indiretamente?

Ter cuidado com o recíproco é uma expressão ambígua. Primeiro é um conselho em relação ao cumprimento da Palavra do Senhor a amarmos ao próximo como a nós mesmos (Mt 22:39, 1 Jo 4:8, Col 3:14). Segundo é ter cuidado com aquilo que se chama de recíproco. Ser recíproco é muito mais do que compartilhar o interesse mútuo, mas é também e essencialmente não deixá-lo morrer. Não deixa de ser recíproco na ausência de pequenas coisas, mas sim na junção de todas elas.

Somos naturalmente negligentes, mas precisamos saber - e sempre sabemos – que para tudo há um limite. Deixa de ser recíproco quando você entende a correspondência do sentimento e considera sua missão de conquistar, dedicar-se e zelar pelo outro esgotada, visto que, agora a tão ansiada reciprocidade existe.  Ninguém gosta de ser vulnerável. É sempre uma ameaça à paz.

O amor, certamente e por ser perpétuo, é uma construção cotidiana, constante, em que todos os dias, todas as ações, todas as palavras são importantes. Se me é lícito a analogia clichê, o amor é como a construção de uma casa, em que tudo é importante, da planta ao acabamento. E quanto a isso, Jesus nos aconselhou. Se não podemos construir nossa casa sobre a areia, quem dirá edificar um relacionamento que envolve tantas coisas à inconstância da nossa reciprocidade egoística! (Mt 7:24-27).

Na poesia há uma frase que ilustraria maravilhosamente o "recuo do recíproco": "me engole ou me cospe, só não me mastiga assim". É exatamente essa a sensação! Essa de ser mastigado, de estar entre o meio termo, preso à inconstância.  Ser guardado é o que todos querem, mas não me parece tão cruel ser cuspido fora. Ora, por quê? Porque essa é a orientação do Senhor. Não há talvez. Não deve haver (Mt 5:37).  A dúvida machuca porque gera ansiedade, e a ansiedade, a falta de confiança na plenitude da soberania do Senhor (Mt 6:28, Fp 4:6).

Provavelmente, pode até parecer exagero, mas eu não enxergo a analogia do relacionamento entre homem e mulher com a relação entre Cristo e Sua Igreja como algo gratuito. Deus quis que tivéssemos decência ao fazer isso. Mais do que decência, ter zelo, respeito, renúncia, empatia e principalmente temor por lembrar Quem instituiu que tudo fosse dessa forma ( Ef 5:29, 1 Cor 10: 31- 33).

Analise sua reciprocidade e quem está sendo recíproco contigo. Às vezes nos apegamos à presença da pessoa e não conseguimos perceber o quanto ela está sendo descuidada conosco ou nos considerando como causa ganha e esgotada.

Às vezes no momento em que temos conhecimento do sentimento do outro, confiamos na permanência dele e nos exaurimos da constância de se empenhar e proteger aquele alguém.

Ser cuidado é tão importante como cuidar. Se precaver de não deixar alguém te magoar diretamente é tão importante quanto não fazer isso com alguém.

A empatia só faz sentido na prática, na pele, na alma e nas ações (Fp 2:5).

Que a graça do Senhor e Sua Palavra nos dê norte e temor para que saibamos exatamente quando é que estamos sendo levados por nosso egoísmo, ferindo e sendo ferido pelo egoísmo de alguém.


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